segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

- VIAGENS



- VALE EXPERIMENTAR, MAS NÃO PRECISA REPETIR..



Certamente “nem tudo que pode ser feito, necessariamente deva ser feito”. Existem pessoas que, no entanto, acham que devem fazer de tudo senão a vida não terá sentido. Não costumo pensar assim, normalmente. Mas quando viajo fico com aquele espírito incomodativo de fazer tudo o que puder em determinado lugar, principalmente se a chance de retornar for muito improvável. E nestas horas sempre fica uma dúvida diante de certas oportunidades que surgem: faço ou não... será que vou me arrepender por fazer agora ou me arrepender depois por não ter feito. Pois bem, para os que gostam de viajar deixo aqui cinco dicas, do tipo, “se puderes fazer, faça.. mas não precisa repetir”.


1. ANDAR de TREM na INDIA: se existe um país para vivenciar experiências absurdamente bizarras, este é a India. E de todas as bizarrices proporcionadas neste exótico mundo uma das maiores está relacionada com os trens. As estações são gigantescas, com centenas de pessoas dos tipos mais exóticos se acotovelando  e esperando um trem que tu não sabes de onde vem. De repente vem um sinal e todos correm para uma plataforma, criando-se duas ondas humanas: uma dos que descem e outra dos que tentam embarcar. Sem falar que os trens tem dezenas de carros e nesta loucura tu ainda tens que achar o teu. É muito louco, mas a adrenalina gerada no meio daquela multidão é algo muito diferente. Isso que não comentei ainda da mala que obviamente tu tens que arrastar contra a multidão. Quando tu finalmente consegues entrar e sentar a sensação é de vitória..  Foi incrível, mas eu não quero fazer de novo.






2. BANHO TURCO em ISTAMBUL: Istambul tem o mais antigo “banho turco” do mundo, situado num prédio original construído pelos romanos. Sem preconceitos, mas essa história de banho coletivo nunca foi minha primeira opção de lazer. Mas como quem tá na chuva é pra se queimar, vamos nessa. Realmente a arquitetura do local é bem interessante, mas não sobra muito tempo para observações pois em seguida tu recebes um balde de água quente por cima, depois outro de água gelada e mais uns alongamentos malucos e mais água quente. Sendo que este massacre é realizado por uns caras que parecem ter saído de uma guarda de assassinos turcos do império otomano. Quando tu sais para rua a sensação é aquela: foi incrível, mas não precisa repetir..





3. COMER um PATHAI APIMENTADO no CHINATOWN de BANGKOK: a comida na Tailândia é muito saborosa e o bairro chinês de Bangkok é uma síntese de culturas de todo mundo que ali se reúnem para comer em dezenas de restaurantes que ficam literalmente na calçada. É uma babel de idiomas, sabores, luzes e cheiros. Mas claro que só isso não basta. O teste supremo é encarar a comida apimentada (eles sempre perguntam se tu queres a comida com ou sem pimenta, sendo que a sem pimenta já tem pimenta).  No início não parece tão apavorante pois muitos estão comendo normalmente. E quando o exótico prato chega, ele até parece inofensivo. Mas esta opinião perdura até a terceira garfada. Interessante é que a pimenta parece ter um “delay”. Nas duas primeiras mastigadas a coisa vai indo bem. Só que quando a pimenta “pega”, as lágrimas são imediatas. Estranha contradição é que o Pathai é muito gostoso. Tu queres continuar comendo mas literalmente tua língua e teu cérebro estão sendo dissolvidos neste momento. Não tem como chegar ao final, mesmo com toda a cerveja ajudando (a Chang é uma cerveja tailandesa muito boa, mas neste caso não ajudou). O clima, o lugar e o sabor fazem a experiência culinária ser incrível, mas não tem como repetir.   



  

4- ANDAR de TUK-TUK em HANÓI: um dos cenários mais impressionantes de se ficar observando é o trânsito em Hanói, no Vietnam. Milhares de pequenas motos, carregando várias pessoas e mercadorias ao mesmo tempo, fazem do trânsito um espetáculo de tensão constante pois a cada segundo do um desastre é iminente. É o maior exemplo de caos organizado que já presenciei. Nem vou comentar a experiência que é atravessar uma rua (não existem semáforos). Só existe uma regra: fecha os olhos e vai.. eles irão desviar.. Mas o terror é estar dentro do caos, andando num daqueles carrinhos puxados por uma moto.  São motos vindo de todos os lados, sem que você tenha a menor chance de se defender. A frequência cardíaca vai aos picos e a teu único desejo é “eu quero sair daqui”. No Vietnam praticamente não existe transporte coletivo. Todos tem e andam de moto, para ir ao trabalho, escola, mercado. Estudos apontam que se for necessário evacuar a cidade de Hanói, todos os habitantes poderão sair em motos, tal a quantidade destes veículos e a habilidade que eles tem de carregar três, quatro e até cinco pessoas ao mesmo tempo. Grande experiência, para quem gosta de emoção, mas uma vez só é suficiente. Para cardíacos é totalmente contra-indicado.






5. VIAJAR pelo INTERIOR de CUBA: a terra de Fidel vai ser um bom lugar para se visitar mais de uma vez quando deixar de ser a terra de Fidel. Depois de alguns dias viajando por Cuba você percebe que o culto à revolução só faz sentido para os próprios cubanos. A infra-estrutura do país é muito precária, a comida é ruim, os pontos turísticos (excetuando Havana) são no máximo interessantes e os atrativos turísticos carecem de manutenção. Em Cuba parece que todos vivem no “Mundo de Bob”, aclamando uma história que, além de ser ilustrada por poucas glórias, já perdeu o sentido há muito tempo, criando um arcaico sistema econômico que você facilmente percebe não ter a menor chance de melhorar as condições de vida da população. Vale conhecer Cuba para entender porque o comunismo como proposta ideológica fracassou em todos os locais em que foi implantado. Trata-se de uma interessante experiência sócio-política, que você não conseguiria vivenciar em livro algum. Mas como experiência, não precisa repetir.






sábado, 19 de dezembro de 2015

- VICISSITUDES PESSOAIS




- O DESPERTAR DE "STAR WARS"




O modelo de filmes em sequência sempre traz uma negativa expectativa em relação ao próximo episódio. E na saga “Star Wars” eu e minha geração, que aprendemos a construir a paixão pelos Cavaleiros Jedi, a partir dos episódios IV, V e VI, vimos esta expectativa se confirmar nos episódios I, II e III, quando o modelo da fantasia emocional pela aventura foi substituído pela narrativa tecnológica burocrática. Por isso toda a expectativa em cima da retomada pela aventura prometida para o episódio VII. E neste clima lá fui eu, junto com uma plateia de “tiozinhos e tiazinhas”, alguns acompanhados pelos seus padawans, para uma das primeiras sessões. Num cinema lotado, era nítido que a tensão gerada pela perspectiva da frustração estava presente no ambiente. Mas bastaram os minutos iniciais do filme para que todos percebessem que a magia havia retornado. Provavelmente nem todos irão gostar do filme, mas para os que viram o início da série, no cinema, lá na distante década de 80, e estavam carentes de sair do cinema com aquela sensação inexplicável de que a Força existe, posso garantir: desta vez o sentimento na saída foi como da primeira vez.. A Força está de volta..

Consigo identificar três motivos para achar que hoje os executivos da Walt Disney Pictures devem estar em êxtase financeiro, após investir 4,05 bilhões de dólares para comprar a empresa de George Lucas e garantir os direitos de produção de Star Wars:
1 – A opção pela emoção: parece incrível, mas depois da overdose de efeitos especiais, que colocaram a narrativa a serviço da tecnologia, alguém percebeu a necessidade de retornar as origens, e entender que o sucesso da séria estava na história, na aventura, na emoção que nos conduzia a querer ser um Jedi. É nítido neste episódio que os efeitos tecnológicos estão presentes para ilustrar a história e não para serem os protagonistas. Se é para ver um filme de efeitos especiais, vou comprar pipoca e assistir Transformers.. Star Wars é muito mais que isso..
2 – O carisma das personagens: depois de sermos arrastados a aguentar Ewan McGregor afundando o personagem de Alec Guiness, durante três episódios, com seu Obi-Wan Kenobi estilo pastel de rodoviária, sem gosto e sem tempero, surge agora um novo/velho elenco, que justifica o carisma exigido pela história. A empatia da atriz Dayse Ridley com a personagem Rey é emocionante. Com cinco minutos de filme você percebe que ela está ali para fazer a diferença na história. E para não errar joga tudo no antigo que deu certo. Harrison Ford e seu impagável Han Solo. Não tem como não se emocionar quando ele surge pela primeira vez em cena, casualmente a que aparece no trailer e por isso me permito citá-la aqui. Mesmo não sendo um Jedi, Han Solo é “o cara” e felizmente nunca precisou ser substituído por outro ator. Ele continua pilotando muito bem suas frases irônicas e seu estilo aventureiro imprudente, apesar do tempo.   
3 – Investimento em ícones: em O Despertar da Força retoma-se um dos fatores de sucesso da série, que é a relevância das figuras icônicas de objetos. Quem de nós nunca quis ter um “sabre de luz”, ou pilotar o “Falcon Millenium” ou ter um “R2D2” como amigo? Neste episódio os elementos clássicos das construções iniciais da série voltam não como figuras decorativas, mas praticamente como personagens. O “sabre de luz” é protagonista da melhor cena do filme; o “Falcon Millenium” leva a plateia ao delírio com suas manobras e na falta de um “R2D2” (ok, escapou um spoiller) surge a figura que “rouba” muitas cenas no filme: o dróide BB-2. Este robozinho vai fazer a alegria dos vendedores de brinquedos.  


Mas é isso.. Estava com saudades daquele efeito “onde eu compro outro ingresso pra ver de novo”. Esta deve estar sendo a sensação para os aficionados pela série que já viram o filme. E para os que não viram ainda, podem ir ao cinema tranquilos. Vai valer muito assistir. “O Despertar da Força” traz implícito no título o seu real significado: o despertar da série.. a aventura está de volta..    








quarta-feira, 28 de outubro de 2015

- VICISSITUDES PESSOAIS


- "CONNECTING BENFICA FANS AROUND THE WORLD"




Exemplo de uma perfeita associação da paixão com uma marca.
Mais que uma publicidade é quase uma propaganda ..

Obrigado Fly Emirates pela homenagem... SQN...


domingo, 23 de agosto de 2015

- VICISSITUDES PESSOAIS


- POR QUE AS OPORTUNIDADES PASSAM?




Gosto de pensar sobre fatos analisando os seus valores e isto faz com que eu crie algumas “teses” sobre este universo em que estamos inseridos. Por exemplo, uma das minhas teses favoritas e mais comprovada, é a de que todos os dias devemos considerar sobre o que o mundo lá fora fará hoje para me prejudicar. Isso mesmo. Todos os dias, quando acordo pela manhã sempre me intrigo com este pensamento. Mas sigo pensando: “o que o mundo fará hoje para me ferrar”. Pode parecer um tanto paranoico, mas na medida que o dia vai passando consigo identificar mais consequências do que oportunidades. Tudo bem que alguém já disse que “no mundo não existem prêmios nem castigos, apenas consequências”. Mas também é fato que estas consequências são resultado mais das nossas defesas do que das possíveis iniciativas. Ouvimos muitas opiniões e enxergamos algumas perspectivas. Mas as oportunidades são raras. Isto talvez seja o maior estímulo a permanecermos na chamada “zona de conforto”. O interessante é observar que estas oportunidades não vêm do acaso, mas são patrocinadas por alguém. Em algum momento, em algum lugar alguém nos dará uma oportunidade. Claro que nesta oferta está implícita uma cobrança, afinal nada é de graça. Portanto, o aproveitamento de uma oportunidade passa por três obstáculos. O primeiro é identificá-la (não estamos acostumados com pessoas nos oferecendo oportunidades); o segundo é vencer a desconfiança sobre qual o real interesse de quem a oferece (nos preocupamos muito com o ganho dos outros); e o terceiro é a capacidade de interpretação desta oportunidade como um desafio e não como um problema. E o pior, quando surge alguém com uma oferta, assumimos o risco de vitimá-la pelo nosso medo de frustrações e pela nossa nefasta tendência a acomodação. Todo este discurso na realidade é para manifestar a satisfação que sinto quando visualizo uma “tese” sendo transformada em um roteiro, simples e de fácil entendimento. Admiro quem consegue tornar algo que pensamos em uma narrativa que nos emociona. Afinal, tornar o óbvio algo interessante é uma prova de genialidade. E isto ocorre em um filme: “A Vida Secreta de Walter Mitty”. Sabe aquele filme despretensioso, que você pega para assistir apenas para passar o tempo e de repente ele te dá um soco no estômago? Pois este é um exemplo. Trata-se de um filme sobre uma pessoa mediana, numa vida medíocre e inserida num mundo cruel, que subitamente se depara com uma oportunidade. Aquela muito rara, que nós ficaríamos com uma certa tendência a negá-la e que provavelmente, se pensarmos um pouco, já deve ter passado pelo menos uma na nossa frente. Neste caso, ao contrário da maioria, a opção da personagem é pelo mais difícil. E vale o resultado, pelo menos no filme. Uma história que nada mais é do que uma metáfora sobre a vida de cada um de nós, com uma trilha sonora sensacional (o melhor do filme) e uma fotografia deslumbrante. Fica a dica. O mundo quer nos ferrar diariamente. Mas em algum momento, alguém vai nos oferecer a oportunidade de fazer o diferente. Observe mais os valores do que os fatos. E tome a decisão correta. Para viver uma vida criativa devemos perder o medo de estarmos errados. Não espere pela certeza para tomar uma decisão. Ela não virá, assim como provavelmente uma nova chance também não.


sábado, 14 de março de 2015

- VIOLÊNCIA


- PARA QUE PRECISA DE POLÍCIA?


Quinta-feira, à noite, no trajeto para casa paro em uma sinaleira, e como sempre faço, fico na faixa do meio, pouco antes do semáfaro. À minha direita, um pouco mais a frente para um carro vermelho, e em seguida cruza uma moto, com dois ocupantes de capacete, que se posiciona a minha frente e ao lado do carro vermelho. Uma cena sem importância até perceber que do lado do motorista, no carro vermelho, se projeta uma mão, empunhando uma pistola que aponta diretamente para o piloto da moto. Numa sequência rápida, mas sem precipitação, o motorista do carro desce com pistola fixamente apontada para o piloto, aproxima-se da moto, tira a chave da ignição e colocando a outra mão na cintura do piloto retira deste um revólver. Na mesma cena, mas em movimento paralelo, pela outra porta do carro desce uma jovem também com uma pistola na mão, e rapidamente direciona sua pontaria para o segundo ocupante da moto. Neste momento reconheço a jovem como sendo uma das minhas alunas no último curso de formação de inspetores da Academia de Polícia. Os ocupantes da moto são conduzidos até a calçada enquanto sou orientado por um sinal a ficar parado. Quando todos chegam a calçada sou então liberado para seguir em frente. E assim, até chegar em casa consegui refletir sobre dois sentimentos. O primeiro, de segurança. Pelo menos naquela noite, alguém não será assaltado, assassinado ou terá um revólver apontado para sua cabeça (como já aconteceu comigo) enquanto se dirige para casa após um dia de trabalho. Infelizmente, nos dias seguintes provavelmente a “justiça” já os terá colocado na rua, mas nesta noite ao menos, nós teremos um pouco mais de chance. E o segundo, de orgulho. Orgulho por ter participado na sua formação e orgulho por vê-los fazendo seu trabalho de forma tão eficiente. Acabara de presenciar uma ação rápida, eficaz, executada com mínimos riscos colaterais, por parte daqueles que estão na rua para garantir a nossa segurança. Para os idiotas, interesseiros ideológicos ou alienados que não sabem para que precisamos de polícia fica a resposta no próprio lema da instituição. Nós precisamos deles para “servir e proteger” a todos nós, mesmo os que não os consideram. Parabéns aos jovens anônimos policiais que estavam naquele momento, naquele local. Vocês me protegeram e a todas as potenciais vítimas da violência destes marginais, naquela noite, e que ironicamente não tem a mínima noção do que vocês fizeram por elas. Há certa glória no anonimato.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

- VICISSITUDES PESSOAIS


- COMO SE DIVIDE A VIDA COM ALGUÉM?




Desde “O Último Tango em Paris”, passando por “Império dos Sentidos” e até chegar em “50 Tons de Cinza” filmes que mostram duas pessoas relacionando-se além dos limites da pseudo-normalidade convencional parecem ser muito atrativos. Ou pelo menos conseguem apreender os instintos, os sonhos ou os desejos das pessoas. O apelo visual sempre é muito estimulante. Pois num momento em que “50 Tons de Cinza” mobiliza multidões ao cinema para ver um filme sobre o relacionamento de um casal “atípico” gostaria de chamar a atenção sobre um outro filme, que discute esta temática de uma forma brilhante: “Her”. É temerário dizer que um filme possa esgotar todas as perspectivas de risco que envolvem um relacionamento, mas este, se não o faz, chega muito próximo. O filme discute a dificuldade de se conseguir um relacionamento, os problemas para se manter um relacionamento, o medo da dor potencialmente gerada pela perda de um relacionamento e a culpa originda por esta perda, lançando tudo isso de forma ordenadamente desordenada, numa narrativa monótona e instigante, onde cada cena é criada para nos fazer pensar. Trata-se de verdadeira crônica sobre a ilusão da aproximação, um liquidificador de sentimentos que certamente, em algum momento, envolve e tritura a nossa realidade. Talvez isso já possa ter sido feito em outros filmes. Mas que tal criar este universo numa relação em que um dos parceiros é virtual. Seria possível um sentimento ou algo emocionalmente eficaz com alguém que você não consegue ver, tocar, sentir seu cheiro ou seu gosto? Impossível imaginar. Tudo bem que a voz desta parceria virtual é da Scarlett Johansson, que consegue ser perfeita até quando não aparece, mas só a fantasia auditiva seria suficiente para sustentar um relacionamento que ultrapassa a emoção e gera um sentimento fundamental? Sentimento que inclusive é citado no filme como sendo “uma forma de insanidade socialmente aceita”. Aliás este é um filme de “frases”. A cada momento uma citação nos faz pensar, mas sem muito tempo para fazê-lo pois de forma inesperada uma outra logo surge. “Como se divide a vida com alguém?”... “Nós crescemos e mudamos juntos. Mas essa é a parte difícil. Mudar sem assustar o outro”.. Somam-se ainda a este roteiro genial uma atuação melancolicamente competente de Joaquin Phoenix, uma trilha sonora envolvente e um cenário atemporal. Enfim, você pode até gostar ou ficar atraído por um relacionamento como o de “50 Tons de Cinza”.. Mas se você quer se emocionar com um relacionamento, assista “Her”. Fica a dica..

domingo, 11 de janeiro de 2015

- VIOLÊNCIA


SARCASMO E IRONIA: AS DUAS MELHORES ARMAS CONTRA A ESTUPIDEZ HUMANA






Einstein teria dito que: “existem apenas duas coisas infinitas, o universo e a estupidez humana.. mas para o universo não tenho certeza absoluta”. Lembrei-me desta frase quando me deparei com uma notícia esta semana, publicada no jornal Diário Gaúcho: “Nunca houve tantas mortes violentas na Região Metropolitana (Porto Alegre-RS) como no ano que passou. Foram 1.442 homicídios, um aumento de 26,5% em relação a 2013”. Interessante esta notícia pois nos últimos quatro anos fomos agredidos com estatísticas bizarras e ridículas vindas dos órgãos responsáveis (ou irresponsáveis) do governo informando que os homicídios estavam diminuindo. Aliás, que a violência estava diminuindo. Se existe uma coisa que médico legista faz bem é contar cadáveres.. e melhor ainda contar número de tiros que cada cadáver recebe. Com um aumento constante de corpos vítimas da ação de projéteis de arma de fogo e uma média de três tiros por cadáver que chega baleado ao necrotério do DML fico intrigado ao ler e ouvir relatos oficiais informando que está ocorrendo um aumento no número de “encontro de cadáver” e de “suicídios”.. Realmente Einstein tem razão. Quando as estatísticas jornalísticas retratam de forma mais confiável a nossa realidade do que os dados oficiais algo está fora de controle. E não são os números, pois estes são apenas manipulados pelos interesses políticos. Por outro lado, estamos na metade do mês de janeiro, com temperaturas diárias compatíveis com o calor de Porto Alegre no verão, e desde o final do ano passado os aparelhos de ar condicionado do necrotério do DML estão estragados, sem previsão de conserto. Talvez este conserto venha ocorrer em março, quando o verão acabar. Alguém consegue imaginar o que deve ser trabalhar no cenário de um necrotério, emoldurado por temperaturas de 40º C, moscas em profusão e odores desagradáveis? Melhor não tentar. E certamente esta notícia não sairá no Diário Gaúcho. Necrotério não é notícia. Mas qual a relação que existe entre o descaso com o necrotério do DML e as estatísticas manipuladas da segurança púbica? Tudo e nada. Tudo, porque o que temos aqui são dois exemplos de como funciona um sistema doente, manipulados por quem não quer que a doença apareça, e maquiados para transparecerem que tudo está funcionando. E nada, pois independente da importância dos dois fatos, as estatísticas continuarão sendo manipuladas e os funcionários do DML continuarão trabalhando em condições indignas, desprezíveis e execráveis. Mas é bom parar por aqui, pois quando uma verdade ultrapassa cinco linhas vira um romance. E ninguém agüenta mais romances chatos. A charge fica por conta do momento. 


sábado, 7 de junho de 2014

- VICISSITUDES PESSOAIS



- OS MEUS HERÓIS NÃO MORRERAM DE OVERDOSE..




Não sou muito de manifestar emoções pela perda de grandes personalidades, limitando-me na maioria das vezes a valorizar a obra dos que partiram ao invés de chorar a sua ausência. Creio que a única vez em que efetivamente a emoção da perda se transformou em sentimento foi há 18 anos quando da morte de Renato Russo. Lembro que a notícia da sua morte causou-me a sensação de um vazio doloroso, que se refaz de forma competente em todo dia 11 de outubro. Achei que isso não se repetiria mais, até o dia de hoje. Ao ligar o rádio hoje pela manhã ouvi aquela incompreensível frase: “..morreu o grande ídolo colorado, Fernandão..”. Tenho certeza que a reação que me veio à mente foi a mesma de milhares de pessoas.. “Como assim morreu o Fernandão? Isso não pode ser verdade..”. Ele jamais faria isso com a torcida colorada. Nosso capitão certamente se despediria de nós num jogo festivo, com volta olímpica, ele acenando para as arquibancadas no novo Beira-Rio e nós torcedores entoando o grito que ele consagrou nos nossos corações: “Ohhhh vamo vamo Inter, vamo vamo Inter..” . Mas a negação não resiste à implacável foice do destino.. E isso não foi justo com a nação colorada. O barqueiro não poderia ter levado para o Hades nosso capitão.. não agora.. Tento entender o que me leva a estar escrevendo isso agora e a resposta só pode ser uma.. Paixão.. Se é certo que a paixão nasce do desejo e se extingue com a posse, é também correto dizer que ela deixa representações, ícones, lembranças relevantes.. Durante anos todos nós sentimos uma paixão incontestável pelo Internacional. Mas nós queríamos também que esta paixão se transformasse numa alegoria de vitórias significativas, o que sempre nos escapava pela falta de alguém predestinado a nos conduzir pelo deserto até a terra prometida. E o Fernandão foi exatamente isso, o mensageiro de uma paixão. Ele ajudou a transformar o amor de uma nação pelo seu time, no amor de uma nação pelas glórias do seu time.. Como Nike segurando a chama da vitória, os maiores títulos da história do Internacional terão sempre na sua representação a figura do nosso eterno capitão segurando a taça da vitória.. E isso é a maior injustiça de todas, pois através dos tempos, gerações verão a imagem dele levantando a taça da Libertadores e a taça do Campeonato Mundial e o reverenciarão.. Mas pra nós que estamos aqui, agora, ficou aquela sensação de um vazio absurdo, pois sentimos que podíamos ter agradecido melhor, reverenciado melhor, homenageado melhor o que ele significou para a nossa torcida.. E o máximo que nos é permitido agora é reverenciar sua memória.. definitivamente abre-se um novo dia de eterno vazio. Como na cena final de Sociedade dos Poetas Mortos, diante da injustiça da separação inexorável, tenho vontade de subir na classe e dizer: “Oh capitão, meu capitão”.. Se nossos gritos na arquibancada não foram suficientes para agradecer o que tu significaste na história do Internacional, leva contigo o vazio que estamos sentindo pela tua ausência.. Não há espaço para tanto vazio.. E se os heróis de Cazuza “morreram de overdose”, os meus não. Os meus simplesmente morreram cedo. De novo Renato Russo: “Os bons morrem jovens. Assim parece ser, quando me lembro de você. Que acabou indo embora, cedo demais..."

quarta-feira, 28 de maio de 2014

- VICISSITUDES PESSOAIS



- QUANDO A FALTA DE EMOÇÃO PERTURBA..






Em tempo de copa do mundo no Brasil percebo que o meu sentimento de torcedor, cuja paixão é explicita e irrestrita em relação ao Internacional, não se acompanha daquela emoção especial quando se trata da nossa seleção. Abstraindo todas as mazelas que acompanharam a preparação da copa no Brasil, nesta hora sinceramente eu gostaria de estar mais emocionalmente envolvido com a seleção brasileira. Afinal, ela representa o nosso país numa disputa que todos querem vencer, naquele que é sem dúvida o maior evento esportivo do planeta. Em poucos dias, bilhões de pessoas estarão em frente à televisão com um só objetivo: torcer pelo seu país. E estranhamente isto não parece estar me afetando muito. Hoje recebi uma peça publicitária feita pela Coca-Cola para a seleção da Argentina que virá ao Brasil. E me lembrei de um outro comercial feito pela Quilmes, quando da derrota da Argentina na copa de 1994. Acabei postando os dois. Mesmo sendo produtos comerciais é irrefutável que eles retratam o sentimento dos “hinchas” pela sua seleção e pelo futebol. Não sei se estou sentindo inveja das agências publicitárias argentinas ou da paixão dos “hermanos” por sua seleção. Independente da resposta, é certo que na disputa pela paixão por sua seleção, nós levamos uma goleada. E sinceramente não gosto desta falta de sentimento. O significado dele vai além do futebol.

sábado, 8 de março de 2014

- VIAGEM



- UMA CRÔNICA SOBRE AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO MODERNO
PARTE II - MACHU PICCHU


Da série “As Sete Maravilhas do Mundo”, algumas delas conseguem associar os trabalhos do homem e da natureza em um mesmo cenário. Isso logicamente as torna “diferentes” na forma de serem analisadas. Nesta categoria estão Petra, Machu Picchu e o Corcovado, associações perfeitas entre a construção do homem e a obra da natureza. Mas uma delas consegue associar ainda uma terceira variável, que a torna mais espetacular: o “clima espiritual”. Esse lugar é Machu Picchu. A cidade perdida dos Incas vale pelo lugar, pela paisagem, pela história, pelos mistérios, pelas lendas, mas acima de tudo pelo “estar lá”. É uma cidadela de rochas, construída em um platô à 2.400 metros de altura, ladeada por montanhas e florestas. Podemos especular se estamos em um local religioso, um centro astronômico ou simplesmente na morada do nono imperador inca, Pachacútec. O que importa, no entanto, é que a paisagem é deslumbrante e o clima um espetáculo à parte. Num mesmo dia você pode passar por sol, chuva, névoa, calor e frio. Cada monumento reserva uma história e manifesta um significado arqueológico, cultural, místico e religioso. Aliás, transitar por Machu Picchu exige num primeiro momento a figura de um guia, pois neste lugar uma pedra nunca é somente uma “pedra”. Esta cidade inca, com uma parte agrícola e outra urbana, é dotada de casas, templos, praças, terraços, tudo interligado por caminhos e escadas. Intihuatana, Templo do Sol, Templo do Condor, Templo das Três Janelas são lugares que carregam narrativas que transcendem aquilo que estamos vendo. Andar pelos terraços, observar as estruturas e seus blocos de pedra encaixados com precisão, tirar dezenas de fotos fazem parte do programa. E depois de visitar a cidadela é obrigatório reservar um tempo para fazer o que de melhor se pode fazer neste lugar: NADA.. Vale subir até a Cabana do Guardião e ficar observando, lá do alto, a cidade, a floresta, o Huayna Picchu ao fundo (foto clássica) e sentir a magia do lugar. Os que me conhecem sabem que sou quase um estruturalista, com alguns poucos momentos de “fraqueza” espiritual, mas lhes digo uma coisa: “este lugar é diferente”. Não me perguntem o que tem lá.. Mas recomendo a todos que não percam a oportunidade de estar lá.. Duas dicas: não façam o passeio rápido, que chega no trem às 10 da manhã e volta às 3 da tarde. Em Machu Picchu vale chegar cedo pela manhã para ver o dia nascendo e se possível ficar até a tarde para ver o sol se pondo. Para isso recomendo ficar uma noite em Águas Calientes, a cidade que fica junto ao Rio Urubamba. Assim, na primeira visita você pode ficar até o final da tarde, observando o sol baixando, e no dia seguinte voltar novamente para curtir o amanhecer, antes que a horda de turistas bárbaros invada a cidade. Nesta segunda subida (todas são feitas de ônibus), vai a segunda dica. Você pode associar um passeio sensacional que é a subida ao Huayna Picchu ou uma trilha mais leve até a ponte inca. Atenção que a subida ao Huayna Picchu exige reserva prévia e bastante coragem. Mas a vista é extasiante. Outras cidades misteriosas rivalizam com Machu Picchu em termos de valor histórico, mas creio ser difícil alguma delas apresentar o “clima” que esta cidadela inca absorve. No México, por exemplo, Monte Albán apresenta características muito semelhantes a Machu Picchu. Trata-se de uma cidadela, construída pelos zapotecas, em um platô, no alto de uma montanha, com ruínas muito bem conservadas. Você cruza pela cidadela e tem uma aula de história. Mas a memória que fica deste lugar é apenas visual. Trata-se de uma obra magnífica, mas destituída de emoção. Ou seja, os Incas assinaram com louvor uma das sete maravilhas do mundo moderno.. Se “místico” é aquilo que a inteligência humana tem dificuldade em explicar, então Machu Picchu é um lugar místico.. 






         

sábado, 15 de fevereiro de 2014

- VIAGEM



- UMA CRÔNICA SOBRE AS SETE MARAVILHAS DO MUNDO MODERNO
PARTE I - TAJ MAHAL


Muitas pessoas gostam de definir objetivos em suas vidas. Os estruturalistas chamariam isso de “metas”, enquanto os emergentes definiriam isso como “sonhos”. Pouco interessa se são sonhos ou metas. Se os radicais querem escalar o Himalaia, os mais sensíveis desejam escrever um livro. Os objetivos tem o mesmo significado. A idéia está em chegar lá... Pois em julho de 2007 acompanhei a eleição das novas “Sete Maravilhas do Mundo”, escolhidas em um concurso popular internacional promovido pela New Open World Foundation. Com mais de cem milhões de votos, enviados de todas as partes do mundo através da internet, foram escolhidos para este seleto grupo os seguintes monumentos: Coliseu (Itália), Taj Mahal (Índia), Cristo Redentor (Brasil), Chichén Itzá (México), Machu Picchu (Peru), Petra (Jordânia) e a Muralha da China. Lendo esta lista resolvi dar um objetivo às minhas viagens. Assim, juntando sonho e objetivo, resolvi que iria conhecer as Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Este breve histórico é para poder informar que “CHEGUEI LÁ...”. Em janeiro de 2014 consegui fechar a lista e realizar meu sonho/objetivo. Isto me autoriza a escrever minhas impressões sobre estes lugares e talvez despertar um sonho em alguns, afinal viajar nunca é um ato neutro, ao contrário, é sempre uma experiência que nos modifica. Conferindo a lista percebemos que não há um critério comum de destaque presente em todas. Valores artísticos, históricos, naturais, arquitetônicos, religiosos se misturam e destacam cada uma de forma diferente. Assim, não existe a mais espetacular ou a menos importante. Todas se justificam nesta lista por algum critério. No critério artístico o grande destaque da lista, sem dúvida é o Taj Mahal, uma jóia da arte. E começo escrevendo exatamente sobre esta maravilha. O Taj Mahal, nome que significa a “Coroa de Mahal”, foi construído pelo imperador Shah Jahan em homenagem à sua terceira esposa, Mumtaz Mahal, que morreu quando do nascimento de seu décimo quarto filho. Durante vinte e dois anos, mais de 20 mil trabalhadores foram empregados na construção. Trata-se de uma obra impressionante pela riqueza dos desenhos de suas paredes, feitos com ametistas, safiras, jade, turquesa, lápis-lazuli incrustadas em pesados blocos de mármore branco. Quatro minaretes de 41 m de altura cercam o mausoléu que apresenta uma abóbada de 24 m de altura, decorada com fios de ouro. Uma lenda diz que para que os construtores não pudessem repetir a beleza e grandiosidade da obra, o Imperador mandou que suas mãos fossem cortadas e seus olhos cegados. O mais incrível, no entanto, é que não estamos diante de um monumento construído por motivação religiosa, política ou militar. O Taj Mahal é um monumento em homenagem ao amor e nele a paixão está presente em todos os detalhes. E esta paixão ainda teve um fim mais trágico, pois o imperador foi deposto por seu filho logo após a conclusão do mausoléu e passou mais 12 anos preso, até morrer, no Forte de Agra, no outro lado do rio Yamuna, numa sala de cuja janela podia avistar o túmulo construído para sua amada. Durante uma visita ao Forte de Agra é possível chegar a esta sala e ter a mesma visão de Shah Jahan. Não existe nada igual no mundo. Mesmo obras de fantástico valor artístico como a Catedral de São Pedro, em Roma, ou a Alhambra, em Granada, não conseguem transmitir a emoção deste lugar. Mas essa é apenas uma história. As outras seis ficam para os próximos capítulos....





sábado, 11 de janeiro de 2014

- VICISSITUDES PESSOAIS



- SOBRE MEMÓRIAS E O TEMPO DO INDIVÍDUO..





                             

Um estímulo interessante às nossas emoções ocorre quando nos deparamos com cenas que perturbam e despertam os nossos sentimentos privados, que estão escondidos no teatro da nossa memória e cujo “eu proprietário” guarda tão bem, que muitas vezes perde a chave da sua liberação. Nestes momentos, felizmente surgem objetos competentes que resgatam estas memórias emocionais, driblando o guardião do esquecimento. Fico contente quando isso ocorre pois se o horizonte do indivíduo é a morte, é pela memória das coisas que nos despertam a emoção que nos fazemos presentes. Não se trata de nostalgia ou vontade de voltar ao passado. Não interessa se são alterações hormonais ou ondas eletrofisiológicas, invisíveis e não mensuráveis, que causam isso. Vale porque é bom, porque me lembra que coisas especiais ocorreram e que eu tinha cometido a doidice de esquecê-las. Nós temos o tempo geográfico, o tempo social, mas existe também o tempo do individuo, que é cíclico, e composto de eventos que não deveriam ficar tão escondidos. Este discurso todo se deve a dois vídeos que coincidentemente recebi num curto intervalo de tempo e que me trouxeram de volta um ciclo muito bom da história do meu tempo. Vale registrar, pois o guardião da minha memória é tão idiota que pode cometer a negligência de colocá-los no esquecimento novamente.


quarta-feira, 25 de setembro de 2013

- VIOLÊNCIA



- ALGO ESTÁ ERRADO...




A covardia coloca a questão: É seguro?
O comodismo coloca a questão: É popular?
A etiqueta coloca a questão: É elegante?
Mas a consciência coloca a questão: É correto?

E chega uma altura em que temos de tomar uma posição que não é segura, não e elegante, não é popular, mas temos de fazê-lo porque a nossa consciência nos diz que é essa a atitude correta.

Martin Luther King


Recentemente numa reunião daquelas de "alto escalão" fui questionado por uma manifestação minha sobre uma tomada de posição institucional. A dialética entre fazer o que é melhor para o interesse da instituição e fazer o que é certo está cada vez mais presente nas discussões de gerências. E me espanta o fato de que tanto no âmbito profissional quanto nas escolhas pessoais o "princípio do interesse" ganha espaço e justificativas. Me sinto cada vez mais um corpo estranho nestas reuniões pois ainda sou um defensor intransigente da conduta do "faça a coisa certa" .. Esta me parece uma conduta tão simples que fico constrangido em ter que a justificar perante pessoas que antes de mim deveriam apresentá-lá. Me sinto cada vez mais um corpo estranho quando me levanto com minha bandeja, na praça de alimentação do shopping, e vou colocá-lá no lixo. Esta me parece uma conduta tão simples que fico constrangido ao perceber que só eu estou fazendo isso. Um professor de ética me disse certa vez que "ética é aproximar aquilo que nós sabemos que devemos fazer daquilo que nós realmente fazemos". Se este conceito estiver correto acho que devemos começar a nos preocupar. Percebo uma certa banalização em não fazer o que é certo... e o que é pior, solidariedade parece estar se tornando virtude... 





terça-feira, 17 de setembro de 2013

- VICISSITUDES PESSOAIS




- TÁ COMPLICADO FALAR DE SEXO





Talvez não exista lugar mais gerador de conhecimentos ecléticos do que uma sala de cafezinho repleta de médicos, num intervalo de plantão. De “jornada nas estrelas” ao assassinato de Kennedy quase tudo é discutido com fervor partidário. E numa destas reuniões filosóficas, estabeleceu-se uma discussão sobre cenas famosas de sexo em filmes de cinema. Entre descrições detalhadas e sugestões telegráficas cada um dos presentes apresentava sua candidata, cuja indicação era acompanhada de aplausos, vaias e comentários depreciativos ou entusiasmados. O erotismo de Sharon Stone em Instinto Selvagem e a volúpia agressiva de Glenn Close em Atração Fatal disputavam os comentários mais criativos e divertidos até o instante em que apresentei minha preferência: a cena do filme “Encontro Marcado”, protagonizada por Brad Pitt, representando a morte. Após um silêncio constrangedor, percebi os dedos freneticamente em I-Phones, buscando a desconhecida cena. Confesso que fiquei desconcentrado com os comentários. Ninguém gostou, sendo criticado de forma divertida em relação às minhas preferências tanto sexual como cinematogáfica. Nem a pretensa “sensível” ala feminina manifestou apoio. Evidente que para os que gostam de gritos, gemidos e panelas caindo da mesa esta não é uma cena entusiasmante. Por outro lado ela retrata uma sensualidade criativa, desenvolvendo um erotismo delicado, singelo, que se desenrola de forma lenta, quase infantil. Não há gritos, roupas rasgadas ou gestos frenéticos. Os corpos nus pouco aparecem, cedendo seu lugar a uma expressiva troca de olhares, que constroem uma narrativa repleta de significado. Aliás, esta inversão de expectativa representa o grande risco desta cena. Ao contrário do que todos esperam, o Diretor desenvolve todo um rito sexual em que os personagens comunicam seu prazer através de expressões faciais, olhares e toques, fugindo de tudo que é comum neste tipo de cerimônia libidinosa. Realmente, parece mesmo que para ser popular é indispensável ser medíocre. Portanto, para aqueles que futuramente forem participar deste tipo de discussão fica a dica. Se você não quiser ser vitima de bullying sexual vote numa cena barulhenta e manifeste suas preferências por sexo selvagem e sem limites. Ou assuma sua escolha. No meu caso, gostei do resultado, afinal “existe uma certa glória em não ser compreendido”.. 






sábado, 20 de julho de 2013

- VICISSITUDES PESSOAIS



- PEDINDO DESCULPAS




Hoje, após 24 horas de plantão numa emergência em que havia 159 pacientes literalmente empilhados, num espaço projetado para atender 45, resolvi parar um pouco e pedir desculpas... primeiro aos pacientes que estavam lá sentados ou deitados, alguns há vários dias, esperando um leito, uma cirurgia... desculpe por não ter uma sala no bloco para operá-los, desculpa por não ter um leito para interná-los.. pelo menos se vocês conseguirem se recuperar terão bons estádios de futebol para visitarem..  desculpem-me os motoristas das dezenas de ambulâncias que vieram do interior do Estado e despejaram seus pacientes na nossa porta.. desculpe por faze-los esperar, mas em respeito aos colegas do interior, que encaminharam estes pacientes por total falta de condições de atendimento nas suas cidades de origem, eu preciso tratá-los adequadamente antes de libera-los para viagem de volta.. talvez colocando mais um médico nestas cidades as ambulâncias diminuam suas viagens.. desculpe a  todos por ter feito o vestibular mais concorrido, cursado a faculdade mais longa e mais difícil, ter feito uma residência durante três anos em que trabalhei mais de 18 horas por dia, TODOS os dias neste período.. talvez aumentando mais dois anos de faculdade a saúde do país venha a melhorar.. peço desculpas a todos que não sabem o que é ser médico, pois eu não consigo explicar algo tão grande e tão especial.. peço desculpas se eu não reajo diante do preconceito, da inveja e do casuísmo, mas estou muito ocupado fazendo o meu trabalho.. desculpe dilma, padilha, mercadante e todos os prefeitos safados que tentam salvar seus cargos políticos mentindo e enganando a população.. vocês vão passar.. e nós continuaremos.. e espero sinceramente que aqueles que forem substituí-los façam algo melhor.. ou pelo menos sejam mais honestos com a população.. até lá galera da medicina, não se assustem.. liga o som, aumenta o volume e vamos para linha de frente.. é lá que estão as pessoas que reconhecem o trabalho médico..    


segunda-feira, 20 de maio de 2013

- VICISSITUDES PESSOAIS



- VALORES UNIVERSAIS





Confesso que admiro muito a criatividade dos publicitários, principalmente quando eles conseguem carregar de emoção cenários que nos são conhecidos. Nesta campanha uma empresa de telefonia móvel inglesa conseguiu unir dois eventos que são absolutamente universais: a Trafalgar Square e os Beatles. A Trafalgar Square, em Londres, é um daqueles lugares que podemos dizer ser um dos "pontos de encontro dos povos". Neste local mágico, em frente a National Gallery, um dos mais belos museus do mundo, transitam pessoas de todas as nacionalidades, num ambiente absolutamente democrático, onde artistas, turistas, trabalhadores, adultos e crianças convivem em harmonia. Se você estiver em Londres e sem programa definido (o que é difícil), vá para esta praça e fique olhando o mundo passar na sua frente. Pois neste local foram reunidas mais de 13 mil pessoas, chamadas por uma simples mensagem em seu celular: "Esteja na Trafalgar Square tal dia, tal horário". E nada mais foi dito. E na hora marcada foram distribuídos dezenas de microfones, para que fosse feito um karaokê gigante, de surpresa, onde todos cantaram algo que é tão universal e inglês como a própria praça: a música Hey Jude, dos Beatles. Aliás, em termos de música, nada pode ser mais universal que os Beatles. É emocionante ver pessoas tão diferentes unidas num local mágico, cantando uma única música, numa confraternização que nos faz pensar como o mundo poderia ser um lugar muito melhor de se viver.. É impossível ver este vídeo e não sentir uma vontade de ter participado desta história, de ter estado lá naquele momento..   




quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

- VIAGEM



- UM RITUAL BIZARRO E DE MUITA FÉ - NEPAL





Viagens a países exóticos proporcionam sempre experiências também exóticas ou bizarras, mas que nos permitem entender a cultura e a história dos povos. Uma experiência que pode ser classificada como impressionante é a visita ao Templo Hindu de Pashupatinath, em Kathmandu, no Nepal. Este templo, um Patrimônio da Humanidade pela UNESCO, permite uma visão privilegiada dos rituais de cremação, uma cerimônia muito importante dentro da religião hindu. De acordo com a tradição do hinduismo, no Nepal, o cadáver é levado em uma padiola improvisada, normalmente pelos familiares, enrolado em um pano branco ou alaranjado, enquanto estes recitam orações. Ao chegar ao local da cremação junto ao Rio Bagmati, um afluente sagrado do Rio Ganges, o corpo é mergulhado em suas águas, num ritual de purificação. Na seqüência é colocado sobre uma pilha de troncos de madeira, que estão em plataformas junto ao rio. A pira é acesa normalmente pelo filho mais velho, no caso dos homens, ou pelo filho mais novo, no caso de mulheres. O fogo queima durante aproximadamente três horas, supervisionado por um responsável pelas cremações, e acompanhado pelos familiares, normalmente homens. As mulheres só comparecem se não chorarem ou gritarem, pois isto não é considerado adequado para o momento. Neste período o filho mais velho tem seu cabelo raspado, num dos inúmeros rituais que acompanham esta cerimônia. Ao final, as cinzas, pertences e restos de madeira são jogados no rio e a plataforma é lavada, com água do próprio rio, normalmente pelos filhos. Este ritual é extremamente importante para os hindus. As cinzas jogadas nas águas do rio sagrado libertam a alma da matéria, permitindo que a fumaça que sobe, estabeleça uma comunicação com os Deuses. A cremação é o caminho para a libertação espiritual, liberando o homem do Samsara, um ciclo vicioso de milhares de renascimentos e reencarnações, e permitindo alcançar o Moksha, um estado de perfeição, uma analogia ao Nirvana. Para nós que não participamos dessa cultura, o ritual pode parecer algo entre o macabro e o bizarro. Mas diante dele é possível sentir o peso da religiosidade e a fé que reveste cada gesto desta diversidade. Você fica tempo observando o cenário e questionando a espiritualidade e o valor do corpo e da matéria. Pashupatinath corresponde, no Nepal, ao que ocorre em Varanasi, a cidade sagrada dos seguidores do hinduismo. Mas isso já é outra história... 






sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

- VIAGEM



-  VALORIZANDO MOMENTOS





Uma análise interessante quando se viaja com certa regularidade é comparar a perspectiva de interesses no planejamento da ida com a quantidade de lembranças da volta. Normalmente planejamos uma viagem baseado no que pretendemos ver e conhecer, incluindo paisagens, monumentos, museus. Mas quando retornamos, nossas melhores histórias não envolvem lugares.. Envolvem pessoas. Basta prestar atenção naquele papo de bar, junto com a família ou com a turma. Quando vamos contar algo interessante de uma viagem, normalmente o núcleo da narrativa está numa situação que envolve as pessoas do lugar visitado. Esta é uma dica para quando planejar uma viagem. Considere não apenas os lugares bonitos que irá conhecer, mas as características e a cultura do povo com quem irás conviver. Neste núcleo estarão nossas melhores histórias. Neste sentido, um dos lugares mais impressionantes que conheci foram os Templos da Civilização Kmer, no Camboja, incluindo o Templo de Angkor Vat. Estes monumentos religiosos impressionam pelo seu tamanho e estilo arquitetônico. Mesmo diante disso, sempre que me perguntam sobre o Camboja, a história que conto não envolve os templos, mas a figura isolada de uma velha senhora. Quando chegava ao Templo de Angkor Tom, após uma caminhada na floresta, percebi uma senhora idosa, sentada no chão, na entrada do templo, vendendo aquelas famosas “lembrançinhas made in China” que proliferam em todo lugar. Após uma hora de passeio, na saída, percebi que a senhora estava no mesmo lugar, na mesma posição e aparentemente com os mesmos objetos expostos, resultado de um programa de vendas não bem sucedido. Aproximei-me e percebi que ela vendia aquela inutilidade que são os ímãs de geladeira. Após uma certa dificuldade de comunicação, mesmo sem saber direito quanto iria pagar, peguei dois exemplares e dei-lhe uma nota de cinco dólares. Neste momento ela afastou uma espécie manto que a cobria e tentou pegar uma pequena bolsa para me dar o troco. Só então percebi que ela não tinha nem as mãos e nem os pés, que foram amputados. Descobri mais tarde que se tratava de uma das centenas de vítimas de minas terrestres que existem no Camboja, que literalmente tem seus membros explodidos, de forma cruel e aleatória. Isto ocorre principalmente com simples agricultores, quando estes estão trabalhando no campo. Voltando a cena, acho que fiquei alguns minutos olhando para ela, com os dois cotos de antebraço, segurando meu troco. E neste curto espaço de tempo pude perceber aquele rosto envelhecido, não só pelo tempo, mas também pela dor.. e sentir aquele olhar perdido que fulmina nosso coletivo de queixas simplórias e vaidades diárias inúteis. Não sei quanto dinheiro tinha na carteira. Certo que não era muito, mas rapidamente lhe dei todo o que tinha e peguei o saco de ímãs de geladeira. Conversando depois com o guia local, ele narrou que esta é a vida de muitos mutilados de minas. Sem previdência social ou ajuda governamental, a rotina da sobrevivência é passar o dia todo sentado, diante de um templo fantástico, vendendo quinquilharias chinesas para turistas desatentos. Incrível como a imagem daquela mulher está presente nas lembranças daquela viagem, e como ela participa de todas as conversas sobre o Camboja. Lembro que o templo Kmer era magnífico, mas lembro mais dos detalhes das mãos e pés ausentes do que da decoração de suas paredes. Ainda tenho vários ímãs de geladeira chinês, comprados no Camboja, que costumo presentear aos amigos, em situações especiais. Infelizmente os que ganham este presente não entendem o seu significado.. E a sua representação.. E isto também não é justo com aquela senhora.. Aliás, nada na vida parece ter sido justo com ela.. E como em quase todas as viagens, mais uma vez são as “pessoas” que dão significado aos lugares.



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

- VICISSITUDES PESSOAIS



- UMA DICA GASTRONÔMICA




Certamente comer bem é uma das nossas experiências mais prazerosas. E quando podemos exercitá-la na sua plenitude, satisfazendo não só o sentido do paladar, ela se torna melhor ainda. E um lugar para se conviver bem com esta experiência é o restaurante Pasta Nostra, na cidade de São Francisco de Paula. É um restaurante simples, com uma decoração esquizofrênica e um atendimento lento e simpático. Como tudo em São Chico, "lento e simpático". Mas a comida é absurdamente saborosa. Pra não errar no pedido indico uma entrada com pasteizinhos de queijo, seguido de um fettuccine "à pasta nostra" e uma jarra de suco de uva. Este pedido satisfaz bem duas pessoas que não estejam famintas. Na finaleira indico pedir um café preparado pela própria dona do restaurante, que também é a responsável pelo cardápio, ajuda no atendimento e é super simpática. E se a casa estiver tranquila, vale pedir pro Filipe, garçon, gerente e pai novo, puxar um violão e tocar Zé Ramalho. O grui é mt bom.. .E para aqueles que estão acostumados a serem "escalpelados" com os preços de Gramado, não caiam da cadeira: a conta não passa de R$ 60,00... Preço justo e honesto.. Tem outros opções, mas a massa é o ponto alto da casa. Já comi muitos tipos e formas de massa, em vários lugares no mundo, mas nenhuma supera o ponto e o sabor desta casa.. Se você está buscando a "massa perfeita" não vá à Veneza.. Vá a São Chico. Vale a dica.. Não tem erro.. E pra completar o programa vale um passeio matinal no lago São Bernardo e um pós-almoço na Livraria Mirage.. São Chico sempre surpreende..



sábado, 15 de setembro de 2012

- VIAGEM



- UM CONTO CHINÊS





Shih Huang Ti é relacionado no livro de Michael Hart entre as 20 personalidades mais importantes da história. Considerado um guerreiro implacável, no ano de 221 a.C. ele derrotou todos os estados feudais e unificou a China, declarando-se o “primeiro imperador”. Instituiu inúmeras reformas radicais na forma de governar e iniciou a construção da “Grande Muralha”. Este personagem controverso tem associado a sua figura várias histórias bizarras relacionadas ao seu medo de morrer. Considerando que durante sua vida havia arregimentado centenas de inimigos em batalhas, o imperador era assombrado pela imagem do que estes inimigos poderiam fazer com ele após a sua morte, já que estes, segundo o seu pensamento, o estariam esperando no mundo celestial, para uma implacável vingança. Movido por este estado delirante determinou então ao seu primeiro (e mt importante) ministro Li Ssu que, após a sua morte, 8.000 dos seus melhores soldados fossem mortos para que pudessem acompanhá-lo e protegê-lo no mundo dos mortos. Para a felicidade de seus soldados, no entanto, Li Ssu convenceu o imperador que, em vez de matar parte de seu exército, fossem construídas estátuas reproduzindo estes guerreiros, e estas seriam colocadas em sua tumba, como forma de proteção contra os inimigos mortos. Esta sábia alternativa, não somente poupou a vida de mais de 8.000 homens, como propiciou a construção de uma das mais impressionantes obras de arte da história: os “Guerreiros de Terracota de Xian”. Descoberto de forma ocasional, em 1974, este conjunto de estátuas,  representando guerreiros, oficiais, cavalos, carruagens e armas espanta pela qualidade artística das obras e pela quantidade impressionante de figuras. Os guerreiros são em tamanho e estilo natural, variando em peso, indumentária e penteado, de acordo com a patente. Não existem duas estátuas iguais. Cada uma delas representa a figura de um soldado, que, como modelo, deve ter se sentido muito mais gratificado em ter sido representado em terracota do que compulsoriamente tendo de acompanhar seu imperador em uma jornada precoce pelo mundo dos mortos.